"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
... através das gordas dos jornais (porque ainda agora foi dado a conhecer e tem mais de 400 páginas!)
Conclui-se que o valor do chumbo está a acompanhar os valores do mercado imobiliário.*
A tendência da moda insere-se na corrente: Ao inscrever o seu filho no 1.º ano, oferecemos-lhe de imediato um diploma do 9.º ano!
Os ignorantes que, ao atingirem o 10.º ano, descobrirem que não vão ser capazes de continuar um percurso escolar "normal", serão mais baratos como mão-de-obra.
«Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.» (B. Brecht)
A culpa é da dita insegurança da estrada (construída há anos) ou das empresas de exploração das pedreiras que levaram essa exploração aos limites (às bermas da estrada)?
A estrada não saiu do local onde foi construída, as pedreiras é que se foram aproximando ao ponto do inimaginável, do irracional e do ilegal.
Percebemos quando se vêem as imagens aéreas.
As pedreiras transformaram a estrada numa estreita passagem entre duas crateras.
"Aquilo tinha de acontecer. A pedreira foi até aos limites. A estrada nem berma tinha. A estrada por baixo não estava fundada em rocha, naquele maciço calcário, mas sim na terra. Portanto, a terra um dia havia de cair e deslizou com mais chuva. A chuva não tem culpa, só acelera processos que estão em desenvolvimento. O que houve ali foi um deslizamento de terras e a estrada a cair, infelizmente", analisa. "É de uma evidência que é trágica".
Carlos Mineiro Alves, bastonário da Ordem dos Engenheiros, ao DN
Depois das tragédias acontecerem, todos os especialistas sabem que assim seria.
20 e 21 de Novembro de 1971
Em plena primavera marcelista, depois do festival de Vilar de Mouros, o Cascais Jazz era o segundo grande evento musical que fugia ao enquadramento do regime do Estado Novo.
O programa do festival era representativo do jazz que se fazia na época: 4 grupos em cada noite – os mais modernos na noite de dia 20, os mais "tradicionais" na segunda noite.
O público era, essencialmente, constituído por jovens. O Cascais Jazz, no velho pavilhão do Dramático, seria não só a celebração de uma expressão musical, como um espaço de liberdade e de rebeldia, difíceis de viver à data.
A forte presença de público salvou financeiramente o festival, cujos principais patrocinadores retiraram o apoio quase em cima da hora. O entusiasmo superou a má acústica do pavilhão (que chegava a ter uma bancada atrás do palco) e os atrasos do programa.
A história mais conhecida deste festival, é a que envolve Charlie Haden, contrabaixista do quarteto de Ornette Coleman. Haden, que teria vindo tocar contrariado a Portugal, dedicou uma das composições do grupo – Song for Che – aos movimentos de libertação de Moçambique, Guiné e Angola.
Os espectadores aplaudiram e manifestaram-se ruidosamente, teria havido quem aproveitasse para espalhar panfletos contra a guerra colonial, e a polícia de choque, de prevenção no exterior, invadiu o recinto.
No final da noite, a PIDE aguardava Charlie Haden e Luís Vila-Boas, o mais conhecido dos organizadores.
Foram precisas várias horas de negociação para se conseguir autorização para a segunda noite do festival. Ficou a promessa que aquele seria o último festival de jazz de Cascais.
Charlie Haden, gozando da intervenção do adido cultural da embaixada americana, esteve poucas horas detido, sendo depois escoltado para o aeroporto da Portela. Só voltaria a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Dizem que Luís Vilas-Boas deixou de gostar de ouvir o seu nome!
Quando vejo o cartaz do 1.º Festival de Jazz de Cascais, penso no incrível programa: como se conseguiu, num primeiro ano, num país que vivia em ditadura, ter um conjunto de músicos daqueles?
20 e 21 de Novembro de 1971
Eu dormia tranquilo, frequentava o antigo 3.º ano de Liceu e não queria chumbar outra vez.
Ignorava o que se passava em Cascais, estava longe do jazz. Ouvia My Sweet Lord, já conhecia Procol Harum, Moody Blues, gostara do Submarino Amarelo... Em casa ouvia-se muita música no (na?) rádio.
Morreu esta semana o poeta Alexandre Vargas, filho mais novo do também poeta José Gomes Ferreira. No mesmo ano que o seu irmão, o arquitecto Raúl Hestnes Ferreira.
O Alexandre entrou-me em casa nos diários do pai - Dias comuns - e, sem eu saber (só muito mais tarde), pela tradução da poesia de Peter Hammill - Camaleão na sombra da noite.
A música era elemento importante na sua poesia, e por lá passam, entre outros, os King Crimson e Syd Barrett.
A poesia e afinidades musicais...
Quando a minha boca se cansa
e não posso apelar para outra música,
deverei então olhar para trás e dizer
que fiz tudo
demasiado cedo?
(Peter Hammill traduzido,
de Chameleon in the shadow of the night)
Alexandre Vargas desenhado por Luís Manuel Gaspar (1987), para um livro ainda inédito
«(...) estamos perante uma geração cada vez mais alienada e superficial que pensa cada vez com menor profundidade e que, como consequência, relaciona ideias e conceitos de forma cada vez mais rudimentar.»
Celebra-se o centenário do Armistício que pôs fim à 1.ª Guerra Mundial na sua frente ocidental (a mais simbólica).
O Armistício foi assinado na carruagem 2419 D, utilizada pelo Marechal Foch, chefe do Estado-Maior do exército francês.
Mas a 1.ª Guerra Mundial foi "uma guerra de passagem". Vinte anos depois da assinatura do tratado de paz, o mundo mergulhou numa guerra de ajustes de contas...
Na mesma carruagem em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Matthias Erzberger, assinara a capitulação da Alemanha, em 11 de Novembro de 1918, perante o marechal francês Ferdinand Foch, representantes franceses assinaram o cessar-fogo que submeteu a França, a 22 de junho de 1940.
A ofensiva alemã sobre a França, a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo tinha sido um êxito, em apenas 6 semanas.
O novo governo de França, liderado pelo marechal Pétain, comandante superior das tropas francesas na Primeira Guerra Mundial e já com 84 anos, pretendia um cessar-fogo.
Como a vingança se serve fria, Hitler quis que o acordo de paz fosse negociado na floresta de Compiègne, na mesma carruagem em que o general Foch ditara as condições da rendição alemã, em novembro de 1918.
O vagão, que se encontrava exposto em Réthondes, foi empurrado por soldados alemães até ao local onde tinha sido assinado o Armistício de 1918.
A 21 de junho, Hitler sentou-se no lugar do marechal Foch e Pétain foi obrigado a ocupar o lugar em que Erzberger assinara a capitulação alemã. O general Wilhelm Keitel leu as exigências alemãs.
Depois de negociações, às 18:55 h de 22 de Junho de 1940, foi assinado o cessar-fogo.
Três quintos do território francês (a zona Norte), incluindo as principais cidades industriais e a costa atlântica, passaram directamente ao controle da administração militar alemã. Para a Alsácia-Lorena, foi estabelecida uma administração civil. A região desocupada no Sul, com a capital em Vichy, ficou para o governo francês.
A França comprometeu-se a extraditar para a Alemanha todos os refugiados políticos. Os imigrantes foram proibidos de deixar o país.
A carruagem ficou exposta em Berlim, sendo destruída, por ordem de Hitler, em Abril de 1945, um mês antes da capitulação alemã.
Não fossem os franceses lembrar-se de…
«Circulavam jornais com caricaturas de judeus de monstruosos narizes em cavalete, olhos esbugalhados, cobiçosos, expressão brutal ou lasciva e mãos papudas, carregadas de anéis descomunais. Publicavam-se artigos aterradores sobre o culto religioso nas sinagogas e nas casas judaicas. Chegava a afirmar-se que os judeus matavam crianças na noite de Passah em que esperavam o Messias. Nos carros eléctricos e nos comboios viam-se os passageiros divertirem-se à custa de tais histórias e das gravuras repugnantes que as ilustravam. Talvez não acreditassem no que liam e viam, mas procuravam a excitação e até o arrepio que lhes havia de justificar o pôr a descoberto os seus maus instintos. A falta de trabalho inquietava-os. Jovens e velhos perdiam os empregos e esperavam em bichas nas repartições de trabalho, para o selo e o carimbo nos cartões do seguro social. Os desempregados enchiam as cervejarias e exaltavam Hitler, que lhes prometia trabalho e lhes afirmava serem os judeus os maiores culpados da desgraça económica do país. O nome "judeu" cada vez se tornava mais injurioso.»
Ilse Losa, O mundo em que vivi
1989
Queda do Muro
«Só quem um dia o viu ao natural, eriçado de arame farpado e de metralhadoras, pode avaliar a vergonha e humilhação que ele representava para o espírito humano. Agora, pronto. Já se podem trocar as virtudes, os vícios e as ideias. E olhar livre e fraternalmente em todas as direcções.»
«Como é público e notório não votei em Marcelo Rebelo de Sousa e fui dos primeiros a colocar dúvidas quanto ao seu estilo excessivamente intervencionista devo, no entanto, admitir que muitas das suas intervenções têm sido extremamente importantes no mundo de cobardes em que vivemos. Ainda hoje li no jornal Público que Num texto enviado à TSF, para assinalar o Dia Internacional Contra o Fascismo e Antissemitismo, Marcelo usa os verbos "despertar" e "agir" para insistir na mensagem.
"É preciso despertar, também - despertar para os riscos, sempre presentes, dos chauvinismos, das xenofobias, dos racismos, dos chamados populismos, que hoje parecem, tantas vezes, ter substituído o nazismo e o fascismo de há cem anos. Mas mais do que despertar, é preciso agir - agir enfrentando as crises económicas, as injustiças sociais, as fragilidades dos sistemas de partidos e dos parceiros sociais, a corrupção das pessoas e das instituições, que minam as democracias e fazem florescer os seus inimigos".
Enquanto isso o presidente francês Macron, apesar dos 360 ataques anti-semitas no país desde o início do ano intentou prestar homenagem a Pétain, o presidente da república colaboracionista, que entregou os judeus aos nazis e só foi dissuadido pela forte reacção que despertou. Seguramente, Macron pensara que isso o tiraria dos 20% de apoio que o coloca no caminho de Hollande e a França no de possíveis desgraças.»
Recordo que as Mães da Praça de Maio é o nome dado às mulheres que se reuniam na Praça de Maio, em Buenos Aires, para exigirem notícias dos seus filhos, desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983).
Nos últimos dias, falou-se dos valores pagos em horas extraordinárias pela Presidência da República.
Curioso que os valores mais elevados dos últimos anos correspondem à presidência de Cavaco Silva, numa fase em que os funcionários cumpriam 40 horas semanais e os apertos financeiros, sob a tutela da Troika, eram maiores.
«As horas extraordinárias também foi outro fator para o qual o Tribunal de Contas alertou a Presidência, não por terem aumentado — como chegou a ser noticiado por alguns órgãos de comunicação — mas por não ter um registo adequado ao que se pratica atualmente. O controlo de assiduidade e o trabalho extra ainda é anotado, num “livro de ponto”. (...) E como recomendação, o TdC exorta a Presidência a “promover a implementação de um sistema de controlo de assiduidade que permita o controlo efetivo do trabalho realizado, incluindo o pagamento de horas de trabalho suplementar.” Houve de facto um aumento do custo das horas extraordinárias (para 523 mil euros, face aos 452 mil euros de 2016), mas esteve relacionado com o regresso às 35 horas semanais na função pública. Olhando para os números até havia mais horas extraordinárias no tempo de Cavaco Silva.»
Fazendo gala de que o desempenho de cargos públicos justifica a prestação pública de contas, duvido que Quinta Feira e outros dias preste essas contas. Essas e outras...
«90 por cento dos docentes, isto é um número que eu queria dar, terão, em 2023, duas ou mais progressões e 32 por cento terão, inclusivamente, mais três progressões no que é a sua progressão remuneratória. E estas progressões irão traduzir-se num aumento do salário médio por docente, de quase 20 por cento. Isto é, daqui até 2023 teremos, com o reposicionamento, com o descongelamento e com a reconstrução da carreira, um aumento de 19% dos salários entre 2019 e 2023. Equivale a um aumento médio de 3,6% ao ano.»
Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação, na Assembleia da República, 2 de Novembro de 2018
MENTIRA!
Os números são atirados para o ar sem qualquer base de verdade.
Nem é possível tanta progressão na carreira, com a actual legislação. É difícil ouvir tanta aldrabice em tão pouco tempo!
Era mais fácil e mais barato, pela certa, contar todo o tempo de serviço - aquele que recusam contar.
As promessas do ministro fariam ultrapassar os ditos 600 milhões de euros que o Governo afirma não poder pagar.
Citando Aníbal Cavaco Silva, "é um verdadeiro artista!".
«A não ser que se tomem as devidas providências, dentro em breve será celebrada na catedral de S. Marcos a primeira missa submarina para alguns cardumes de peixes boquiabertos.»
«La photographie est devenue un prétexte pour aller vers l’autre, vers ceux qui par leur mode de vie simple, communautaire et chaleureux, me sont proches.»
Georges Dussaud
«Trás-os-Montes é muito fotogénico. É teatral. Os interiores são rústicos, com a luz crua da pintura holandesa, como nos interiores de Vermeer. Trás-os-Montes é uma região autêntica. Autêntica, mas não folclórica. Miguel Torga dizia que quando os camponeses saem para o campo com o rebanho parece que levavam uma constelação de estrelas atrás do capote. É isso. É essa poesia.»
(Georges Dussaud, quando da inauguração do Centro de Fotografia com o seu nome, em Bragança)
Georges Dussaud foi homenageado, há dias, em Bragança.
«Os pobres só têm uma utilidade para o nosso país, votar com diploma de burro no bolso.» A fazer fé na comunicação social, frase proferida por Jair Bolsonaro, entretanto eleito Presidente da República Federativa do Brasil.
«Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.»
Nelson Rodrigues
Não chamo idiota ao eleito, esse é "chico-esperto", se aproveita dos idiotas.
Exposição que celebra os 90 anos de idade de João Abel Manta e os 40 anos da publicação do conjunto de desenhos Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar.
A exposição inclui, também, trabalhos em que o autor reflecte sobre Portugal e a sua História, abrangendo o período pós-Salazar e o PREC.
«Nascido em Lisboa em 1928, João Abel Manta alinhou desde cedo
pela oposição ao Estado Novo enquanto dividiu a sua vida profissional e
artística pela arquitectura, a gravura, o desenho, o cartoon, a cenografia, a
ilustração e o design gráfico. Premiado no país e no estrangeiro, os seus
desenhos e colagens para a imprensa durante o marcelismo e o período revolucionário
de 1974-75 deram-lhe fama duradoura. Deixou-nos uma obra-prima chamada
Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (1978).»
«Um individualista assim, de tamanhas ferocidades contra o
fácil e o demagógico; um artista tão trabalhado e paciente como uma pétala de
mil nervuras; e sempre que necessário tão directo (às vezes em perfil grosso,
sublinhado). A recusa de João Abel às seduções do habitat dos artistas
contentados vem daí, do traço natural da sua exigência.»
«(...) em vez da galeria foi-se ao jornal e ao cartaz, em vez do
investimento plástico do cheque e da glória à vista, empenhou-se na crítica
imediata da nossa realidade de todos (...)»
O historiador Borges Coelho parece ter sido (re)descoberto, agora que cumpriu os 90 anos de vida (7 de Outubro).
Foi ouvido pela Agência Lusa (e citado em vários jornais) a propósito do Museu das Descobertas ou da Expansão ou qualquer que seja o nome que venha a ter, são reeditadas obras suas e a Editorial Caminho promove um ciclo de palestras em sua homenagem, durante a próxima semana, na Livraria Buchholz (R. Duque de Palmela), sob o título O Trabalho do Historiador (sessões com entrada livre).
Recordo o seu poema Paisagem, musicado e cantado por Luís Cília (1967), poema escrito na prisão de Peniche, onde esteve detido entre 1957 e 1962 O porto e a vila eram a paisagem possível de quem estava naquela prisão.
«Escrevo, sim, mas soberana é agora a modéstia com que escrevo. Há uma discrição fundamental em tudo o que tenho a dizer. A minha voz deverá ser extremamente ténue, delicada, fiel a esse "quase nada" que é a minha parte inalienável.»
«Começo por visitar a casa onde Agustina nasceu. (...) Passamos pela antiga Câmara do concelho, pelo velho pelourinho, e descemos a rua até uma casa de pedra, de fachada ampla, erguida mesmo rente à estrada. Tem portas de armazém e um portão de ferro pintado de prata, que deita para um pequeno patamar lajeado, a partir do qual dois pequenos lanços de degraus de pedra dão acesso à casa. Está quase em ruínas e prestes a ser vendida, anuncia o meu guia. (...) O dono cumprimenta-nos e abre-nos as portas. Acedemos ao pátio, subimos ao andar superior. Atravessamos um largo corredor envidraçado, onde a claridade levanta uma poalha luminosa. Ao fundo, transpondo uma porta pintada de amarelo ocre, há um quarto forrado de papel azul, com uma janela sobre o pátio, onde o sol se reflecte especialmente. Foi aqui, noutro Outubro, que Agustina nasceu. Sei que nessa tarde chovia torrencialmente, "aquela chuva do fim do Verão, ríspida e quase alegre". Virado a Sul, era o quarto mais iluminado e aquecido da casa, mas, nesse fim de tarde chuvosa, lá dentro já devia estar escuro. Suponho que os candeeiros de azeite iluminassem frouxamente o espaço. Que já tivessem caído as folhas das glicínias. E que a água formasse poças no estreito patamar lajeado. Pelas seis da tarde, estando o vento de feição, deviam ouvir-se os sinos do mosteiro de Travanca. Sem que se soubesse, aquela casa convertia-se num lugar.»
Isabel Rio Novo
Agustina Bessa-Luís nasceu a 15 de Outubro de 1922, em Vila Meã.
«Remodelação ministerial. De surpresa. Mas logo saltam à praça as feras televisivas. São os comentadores e os intérpretes do dia. Eles sabem tudo, dizem tudo, não deixam que ninguém pense pela própria cabeça. Estão todos em grande, em triunfo e em glória - mesmo os poucos que não lutaram por uma causa nem tiveram uma finalidade pessoal na sua ânsia de doutrinação política. Sendo assim, o pobre de mim dispensa-se de pensar, de dizer, de discutir o óbvio e o obscuro.»
«A demissão de Azeredo Lopes é uma derrota do Governo e uma Grande Derrota do Estado. O que deveria ter sucedido era uma GRANDE VASSOURADA numa instituição que goza em Portugal de um estatuto fortemente desajustado da realidade. As Forças Armadas tornaram-se uma casta intocável, um submundo onde tudo pode acontecer impunemente. (…)»
«Nessa Calçada do Sol que só tinha casas construídas de um lado para se ver o longo panorama de Lisboa em que, certa madrugada, ouvi um tiro de canhão para o povo se reunir na Rotunda e descer aos tiros até à Câmara onde se proclamaria a República. Muitos revolucionários usavam chapéus altos e outros, mais radicais, chapéus de coco. (...) Mas a palavra República é que nos apaixonava. Tinha lá tudo dentro e resolvia todos os problemas do mundo - esperança de barrete frígido.»
José Gomes Ferreira, Calçada do Sol
Miradouro do Monte Agudo (ali perto da antiga Calçada do Sol)