"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Os poetas não dispensam o almoço

«Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta saía do vulgar, entrava em convivência com os silfos, e ipso facto, dispensava o almoço, - enganei-me redondamente. Às nove horas e meia, quando o coração parecia ter feito monopólio da vida dos outros órgãos, começaram-me os intestinos a ressoar uma sinfonia de rugidos, que devia ser a da abertura de uma ópera séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha: panem, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o et circenses traduzi-lho em café com leite.
Consumada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto excelente durante a digestão.»
Camilo Castelo Branco, Cenas da Foz




Foz Velha

Aviso do editor: «Li, como editor, e reli, como crítico, as Cenas da Foz do sr. João Júnior. Declaro que encontrei uma série de cenas, que tanto podiam ser de S. João da Foz, como de Freixo de Espada à Cinta.»  Camilo Castelo Branco


domingo, 5 de outubro de 2014

José Mário Branco distinguido

José Mário Branco recebeu o Prémio Tenco, atribuído em Itália (San Remo) com o objectivo de distinguir artistas que contribuem com a sua obra e com a sua acção para o desenvolvimento das artes e da sociedade.



A defesa dos valores culturais europeus

Orhan Pamuk esteve na Gulbenkian esta 6.ª feira, onde recebeu o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, para a divulgação do património cultural.

Prémio Nobel da Literatura em 2006, publicaria em 2008 uma história de amor que está na origem do Museu da Inocência.
No início de 2013, Pamuk inaugurou o "seu" museu, materializando o que imaginou. Da ficção à musealização.
Pamuk afirmou que a escrita de O Museu da Inocência é simultânea à criação da colecção de objectos que descreve no romance e que levaram à criação do museu. 83 capítulos, 83 vitrinas.
E o Museu da Inocência ganhou o Prémio de Museu Europeu do Ano (2014).



Em Lisboa, na sua intervenção, salientou a necessidade de se preservar o mais importante da rica herança cultural da Europa: os seus valores fundamentais, assentes na trilogia "Igualdade, Liberdade, Fraternidade".

«Foi o momento mais feliz da minha vida, embora então eu não tivesse consciência disso. Se o tivesse sabido, se tivesse apreciado essa dádiva, teriam as coisas terminado de outra forma? Sim, se eu tivesse reconhecido esse instante de felicidade perfeita, tê-lo-ia conservado sem nunca o deixar escapar.»
Assim se inicia O Museu da Inocência.


Dia do Professor 2014

Aniversário da implantação da República e Dia do Professor.





Sob o olhar tutelar do Camões (e mais vale um olho que vê...), concentraram-se os professores em manifestação.
Para tanto erro, tanta incompetência e tanta falta de respeito do ministério, quando já faltam os adjectivos para qualificar os sucessivos disparates e a ausência de pudor de quem nos governa, deveria ter sido muito maior o número de professores.


Fernão Lopes, em boa posição no monumento, teria bons motivos de crónica.


Não é lícito duvidar...

... que está proclamada a República.
Depois da proclamação da República em Lisboa, a notícia seria transmitida por telégrafo ao resto do país.




sábado, 4 de outubro de 2014

Zero absoluto

Do princípio ao fim, tudo "para esquecer".

Omissões, falta de registos, falta de documentos... até a possibilidade de se fazerem denúncias anónimas.


Aquilo em que menos acredito é na inocência de Passos Coelho. Mas...
Denúncias anónimas fazem-me lembrar o que estudei sobre o Tribunal do Santo Ofício.


Pior é sempre possível

No início era o verbo.
Afirmava o Ministro da Educação e garantia o Primeiro-Ministro, "Tudo corre com normalidade".
Reconheçamos: no ministério a normalidade é o erro e a falta de respeito.

Mas depois de um pedido de desculpas por erros cometidos, chamados "incongruências por parte dos serviços do ministério" - assistimos a uma coisa que não é comum, não é comum na história um ministro pedir desculpas por uma "incompatibilidade de escalas", vulgo "burrice" - tivemos um conjunto de promessas, começando na mais simples, "esse erro será corrigido", acabando na garantia de que nenhum dos professores (colocados e ultrapassados) seria prejudicado - promessa arriscada, como ontem se viu.

A nova directora-geral da Administração Escolar, acabadinha de entrar em funções, estreou-se logo com o envio às escolas de um documento a revogar as listas de professores colocados em meados do mês de Setembro a.P.D. (antes do Pedido de Desculpas). Os directores - não os serviços centrais do ministério - devem notificar os docentes de que o concurso foi anulado e, portanto, as colocações ficaram sem efeito.
Aproveitaram-se da "maçarica", digo eu.
O ministro deve estar a preparar um novo pedido de desculpas.
Tarda o pedido de demissão pelo absurdo que tem sido todo o processo de preparação/lançamento do ano lectivo, da parte do ministério, por todas as trapalhadas, desrespeito, falta de consideração... Não há palavras que cheguem!



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Open House 2014

Muito brevemente...


Programa aqui.


Carta Aberta aos Caloiros - Teolinda Gersão

Reproduzo a Carta Aberta aos Caloiros, da autoria de Teolinda Gersão.
Adorei!!!

E como estamos no princípio do ano escolar, deixo aqui uma Carta Aberta aos Caloiros.
Caros Caloiros:
Certamente sabem que, na praxe coimbrã, mãe de todas as praxes, o caloiro é tradicionalmente “o animal”. Como também julgo que sabem, segundo a lei n.º 69/2014, de 29 de agosto, no nosso país os animais passaram a estar protegidos de maus tratos, o que abrange qualquer tipo de coacção física: dor, sofrimento, privação de alimentos, abandono, mutilação ou morte. A pena mais pesada pode ir até aos dois anos de prisão efectiva.
Referindo-se a pessoas, legalmente protegidas desde logo pelos direitos humanos universalmente aceites, o conceito de maus tratos inclui obviamente também qualquer tipo de coerção ou violência psicológica.
O que me leva a pensar: Que fariam se um professor vos mandasse rastejar no chão ? De certeza que não obedeciam, e o professor teria problemas, e apanharia com razão um processo em cima.
No entanto, como se viu em imagens passadas na TV, submeter-se à praxe pode significar rastejar no chão, e a muito mais do que isso. Milhares de espectadores viram, como eu, imagens gravadas no Pátio da Universidade, em Coimbra, em que um grande grupo de caloiros, cercado por um grupo igualmente grande de não caloiros, recebeu ordens para se ajoelhar no chão, inclinar-se para a frente e baixar as calças. Dispenso-me de descrever a cena de humilhação e sadismo que aconteceu a seguir, e ficou registada nas imagens. No entanto, para muitos de vocês, aparentemente nada é violento nem excessivo. A praxe é considerada intocável, acima dos professores, reitores, universidades, instituições e até da lei, que assegura aos cidadãos direitos, liberdades e garantias, que impedem qualquer tipo de violência e humilhação. No entanto, estranhamente, para vocês a praxe parece ter um poder incontestável - embora ela não tenha qualquer validade jurídica, nem sequer obedeça a princípios racionais. Para começar, os Duxes são os que andam na Universidade há mais tempo, somando portanto mais matrículas. Para isso basta ter dinheiro para pagar propinas (embora eu deixe a pergunta se, em todos os casos, as propinas deles são realmente pagas, e por quem). Uma vez que há numerus clausus, deixo também a pergunta se eles não tiram o lugar a outros estudantes, com mais capacidade de tirar um curso. Outra pergunta elementar me ocorre: É possível não haver prazo limite para frequentar a universidade? Esse tempo pode ser ilimitado, quando o ensino, como tudo o mais, depende dos impostos que pagamos? Pelo menos até ao ano passado, havia um dux que há 24 anos que somava matrículas, proeza heróica que gloriosamente o mantinha no cargo. E também pergunto o que se passa no caso de todos os outros duxes, porque o erário público é isso mesmo,um assunto público.
Mas o que mais me agride é que, na prática, vocês passaram a estar muito menos protegidos do que os animais, em sentido próprio. E a responsabilidade, em último caso, é vossa, porque se calam e consentem, rejeitando ou ignorando a lei em que vivem.
Em situações de perigo ou de desastre, se as praxes descambarem em tragédia, não se espantem se as instituições não funcionarem, se universidades, reitores, professores, polícia, tribunais, vos defenderem mal, já que vocês são os primeiros a não querer ser defendidos: consideram que ninguém tem de saber nem de interferir no que acontece nas praxes, juram a pés juntos que são irrelevantes brincadeiras (o que só algumas vezes é verdade, mas está muito longe de ser sempre), sublinham que são adultos, como se esse facto vos permitisse fugir à lei que se aplica a toda a gente.
Sendo essa a vossa posição, a opinião pública pouco mais pode fazer do que deixar-vos sós. Fica no entanto um alerta: em caso de tudo correr mal, dir-se-á que vocês lá estavam por vontade própria, e que, se lá estavam, não estivessem. 
Mas dói-me pensar que vocês pretendem ser descartados desta forma: Se querem ser “animais”, com ou sem aspas, então sejam. Boa sorte. 
Qualquer cão ou gato está muito mais protegido que vocês.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Dia Nacional da China

Ontem comemorou-se o Dia Nacional da China.

Considerando o símbolo das manifestações de Hong-Kong,
quem foi o herói (ou a heroína) que levou um chapéu de chuva para a cerimónia oficial?

As "comemorações" não oficiais em Hong-Kong têm sido diferentes...


Chapéus de chuva em Hong-Kong
Lá, como cá, o clima já não é o que era...
E os líderes ocidentais metem o rabinho entre as pernas!
Calam-se que nem ratos!


«Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.»
Vergílio Ferreira


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Yesterdays

No Dia Mundial da Música...

Yesterdays
Olden days
Golden days


For today I'm dreaming of
Yesterdays

Em memória de alguém que já cá não está...




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Antonioni


Michelangelo Antonioni nasceu a 29 de Setembro de 1912.



Uma óptima selecção de imagens.


Dia de S. Miguel

«Foi então que no céu se deu uma batalha. Miguel e os seus anjos declararam guerra ao dragão e, por sua vez, o dragão e os seus anjos responderam, mas foram vencidos e desapareceram do céu definitivamente. O grande dragão foi esmagado. Ele é a antiga serpente, aquele a quem chamam Diabo e Satanás, o sedutor de toda a gente. Ele e os seus anjos foram atirados para a Terra.»
(Apocalipse 12, 7-9)

S. Miguel, finais do séc. XVII
(Museu Nacional Machado de Castro - Coimbra)

S. Miguel, "general dos espíritos celestes", o primeiro e o príncipe de todos os anjos.
Este S. Miguel é de uma elegância!... Já perdeu a lança, mas não perdeu a compostura, qual James Bond, dominando as forças do Mal sem se despentear e sem amarrotar as suas ricas vestes.  
Estranho é que estas forças do mal sejam representadas por... uma diaba! Mas pelos cascos vê-se logo que não era boa rês!
 

Remediado sem memória...





Será que Passos Coelho acredita que a gente acredita?


domingo, 28 de setembro de 2014

As tears go by - Marianne Faithfull

Com 45 anos de intervalo...





Portugal campeão europeu de ténis de mesa

Não sei se foi por causa das primárias do PS ou se é porque o Ronaldo não faz parte desta selecção, se é porque o Mourinho ou o Jorge Jesus não são treinadores e o Pinto da Costa não é dirigente desta modalidade...
... Mas não vi na televisão qualquer referência à vitória da selecção portuguesa de ténis de mesa no Campeonato da Europa.
Pode-me ter passado, mas...


P.S. - Vi há pouco! E estava lá o Primeiro-Ministro.


Mudar ou não mudar... de canal


Não sou sebastianista, não acredito em homens providenciais, não acredito em milagres e, na política, tenho uma série de dúvidas e a certeza de que ainda passarei por muitas desilusões (relativas, porque as ilusões não são muitas).
Mas, com a vitória de António Costa, pelo menos acredito numa coisa: não devo mudar de canal cada vez que o secretário-geral do PS falar.


sábado, 20 de setembro de 2014

Cante Alentejano - Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa

«Depois do apelo obstinado da cigarra, no tempo de espera da calma do fim de tarde em que uma brisa apressada agita as searas e os corpos unidos no ombro contra ombro, a voz única e poderosa do cante eleva-se como um grito irreprimível, numa teimosa afirmação de identidade e dignidade cultural do povo do Alentejo.
(...)
São os sinais e os sons das terras mouras, dos lugares do Sul onde o Mediterrâneo foi a causa e a matriz.»
Cláudio Torres


Na foto, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa
actuando, hoje, no Estádio 1.º de Maio (Lisboa)
na Cidade das Tradições (INATEL)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nem a matemática se safa

O Governo prolonga a silly season, no sentido da verdadeira idiotice, agravada pela negação dos erros.
É em relação ao caso BES, à reforma da justiça, à abertura do ano lectivo...
Já é tão normal que nos estamos, perigosamente, a adaptar.


Se o ministro fosse exigente consigo próprio como é em relação a picuinhices do funcionamento das escolas, já se tinha demitido!


Por que razões surgiu o Convento de Mafra

Motivado pelas notícias do seu aniversário e pelas iniciativas "anexas", parti, no Domingo, à revisitação do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas.


Burro! Não consultei o horário de funcionamento do museu.
Fecha ao Domingo.
Isto de museus e outros espaços culturais fecharem ao Domingo!... Quando a maioria da população tem o tempo disponível para usufruir desses bens...

A família propôs Mafra.
Lá fomos ao convento prometido por D. João V, porque o frade "sabia-a toda"!

«Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz agora consigo um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, visto a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.
Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino. Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos (...)»
José Saramago, Memorial do Convento

Vimos o palácio, espreitámos a noiva na basílica (foi mais o padre, que a noiva estava atrasada - mas depois despachou-se depressa) e demos uma vista de olhos num cantinho do convento propriamente dito, que a soldadesca alambazou-se com o resto.
Foi no convento que, em 1981, me apresentei para não fazer a tropa.


No geral, muita falta de informação sobre os espaços e os objectos expostos. Inclusive, alguns painéis temporários retiravam visibilidade a uma ou outra pintura.
Pobreza (num espaço daquela riqueza!), descuido... E não se paga tão pouco assim.



Reparo positivo: a funcionária da biblioteca prestava informações sobre o espaço, a colecção de livros, a sua conservação, os morcegos que lá habitam, etc. E sabia de que falava.



sábado, 13 de setembro de 2014

Dificuldades técnicas

São crónicas as dificuldades técnicas do Governo: nas Finanças, na Justiça, na Educação...

Dizia o ministro: "Vamos mostrar-vos como é que as coisas melhoraram."
Não conseguimos ver. Nem na realidade, nem na virtualidade. E eles até tinham um power point e uma pen que foi colocada num sítio errado - a senhora doutora chama-se Loura!


Se eu não fosse uma pessoa educada... diria onde é que devia ser enfiada a pen!


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Maias no cinema

Estreou hoje.


Independentemente da qualidade do filme - será bom, não será - já é óptimo que alguém se tenha aventurado numa realização cinematográfica de Os Maias - que tenha feito um esforço, corrido com ânsia para (ou por) alguma coisa que não um americano.
Na vida, sempre vale a pena correr por qualquer coisa.


Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas

15.º aniversário do (novo) Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas.

Túmulo etrusco


O mosaico do mês de Setembro.


Olh'a marcha de Benfica




quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O vinho dos amantes




Ainda o Vinho do Douro

«No lagar, sob o soalho do meu quarto, ouço correr o vinho, como numa fonte de jardim; um picante cheiro a mosto, subindo no ar, parece encher todo o vale; e, ao longe, entre as vindimadeiras, uma voz de soprano, rija, metálica, entoa uma das dolentes e arrastadas cantigas, ao mesmo tempo tristes e zombeteiras, de cima do Douro.»
Ramalho Ortigão, As Farpas




«Setembro da abundância...
Velhice que parece nova infância.
São Miguel das vindimas, Sol divino,
Negros frutos de néctar purpurino.
Ó sangue vivo em flor,
Pintando as mangas da camisa ao lavrador 
E os seus lábios que ficam a sorrir...
Lagares a ferver vermelha espuma a abrir.
E que bom cheiro a mosto.
Luz de perfume, espírito, embriaguez,
Esparso e alado gosto,
Almas de Bacanais, em sombra de palidez.»
Teixeira de Pascoaes



Dia do Vinho do Porto

Tinha surgido um Dia Internacional ou Mundial do do Vinho do Porto, comemorado a 27 de Janeiro.
Agora fala-se de um Dia do Vinho do Porto, sem o Internacional ou Mundial.

A data de hoje faz sentido: foi a 10 de Setembro de 1756 que D. José I assinou o alvará régio que instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (a Real Companhia Velha).
O objectivo era limitar a preponderância dos ingleses no comércio dos vinhos do Douro e resolver a crise por que passava aquela região.


«(...) sustentando a cultura das vinhas, conserve as produções delas na sua pureza natural, em benefício da lavoura, do comércio e da saúde pública.»


A iniciativa, diz-se, foi do Marquês de Pombal, mas por detrás, também se diz, havia um velho frade dominicano de comportamentos pouco abonatórios para quem usava hábito (João de Mansilha) e, mais atrás, diz-se ainda, um grande vinicultor do Douro, pertencente a uma nobre família do Porto (Dr. Luís Beleza de Andrade). Ainda haveria um espanhol (Bartolomeu Pancorbo), continua o "diz-se diz-se", natural da Biscaia, que também se dedicava ao negócio do Vinho do Porto.
Diz-se que o frade, natural de S. Miguel de Lobrigos, "gozava de grande influência junto do Marquês" ou que era "subserviente em excesso aos interesses do Marquês". Será possível que as duas afirmações estejam certas e que Frei João e Pombal fossem "unha com carne"?
João de Mansilha foi procurador da Companhia na corte (aquilo a que chamaríamos hoje lobby). Caiu em desgraça com a queda em desgraça do Marquês.

As polémicas quanto à criação e início de funções da Companhia foram muitas, com revoltas à mistura, como o "motim dos taberneiros", na Quarta-Feira de Cinzas do ano de 1757, castigado, à "boa" maneira de Pombal, com um elevado número de enforcamentos e condenações ao degredo.

Pipas de massa vinho
(que representam... muita "massa")


terça-feira, 9 de setembro de 2014

As ilhas (re)conhecidas

Encontrei as minhas ilhas conhecidas nas notas e paisagens de Raul Brandão e nas fotografias de Jorge Barros.


«Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões.»
Raul Brandão (1926)


«Sempre que regresso às ilhas atlânticas trago comigo o livro de Raul Brandão. Descubro na sua leitura sítios e situações - na luz e no silêncio -, coisas que me surpreendem, seduzem, fascinam.
Mas é o convívio humano - olhares, gestos -, e a sua generosa entrega, que me enriquece espiritualmente e que aqui procurei evocar.
O amor para com os outros é o melhor de nós. E é o melhor de nós que encontro no meio deste mar imenso.»
Jorge Barros (2011)


«A nossa última viagem foi aos Açores numa época (1926) em que quase não se falava ainda nesse lindo arquipélago, e Raul Brandão partiu com o carinho que sempre dispensava a qualquer obra que empreendesse (...)
(...) em todas as ilhas ficou um pouco do nosso coração.
Foi talvez esta a última viagem, que tanto nos encantou, a causa do avanço mais rápido da doença de Raul Brandão porque a sua saúde já era precária e o trabalho foi exaustivo, a aproximação constante do mar devia ter influído na depressão tão grande do seu coração.»
Maria Angelina Brandão, Um Coração e uma Vontade. Memórias (1959)


Esconde-se a Lua...



                                Há uma luz
                                sobre as luzes
                                onde o olhar escapa a todas as luzes
José Tolentino Mendonça, A papoila e o monge


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Dvorák - Canção ao luar

Rusalka, uma canção de sereias (como se os checos fossem um povo de marinheiros!).
A incursão de maior sucesso de Dvorák pelos terrenos da ópera, onde é pouco conhecido.


Dvorák nasceu a 8 de Setembro de 1841.


Pedir lume aos candeeiros



A Foz Velha, qual Pátio das Cantigas






Deste conjunto de fotografias da Foz, as duas primeiras não foram tiradas por mim.


domingo, 7 de setembro de 2014

U get me high...




Despesismo de Nuno Crato

Ou, como dizia a minha avó, poupa-se na farinha para gastar no farelo.


Ou, como diz a estafada frase:
"Se a educação sai cara, experimentem a ignorância."

P.S. - Estes 4 milhões são um custo parcial (dirão respeito, apenas, a 2014).
Os 10 milhões dizem respeito aos 6 processos que o Estado já perdeu... em 7. Ainda faltam 36 processos!
Os custos com os advogados, de sociedades de "gente amiga", já vão em centenas de milhares de euros.

Gastem, filhos! O dinheiro não é vosso.


Camilo Pessanha

«Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é languida e inerme.
Oh! Quem podesse deslisar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...»
Camilo Pessanha, Clepsydra

Camilo Pessanha nasceu a 7 de Setembro de 1867, em Coimbra.



Dúvidas explícitas

Houve uma "revisão metodológica" introduzida pelo Sistema Europeu de Contas, com implicações no cálculo do PIB, em resultado das fontes consideradas e do tratamento dos seus valores.
As alterações têm um impacto positivo estimado em cerca de 5 mil milhões de euros, o que se reflecte num crescimento de 3% do PIB no ano base de 2011, assim reavaliado em alta.

Entre os principais contributos para esse crescimento estão a capitalização das despesas de investigação e desenvolvimento (sempre vale a pena investir aí!).
Segundo o INE, a inclusão explícita das actividades ilegais, como o tráfico de droga e a prostituição, contribuiu com 629 milhões de euros.

Ao lermos isto podemos pensar... muitas coisas, nomeadamente que todos estes sistemas de contas são artificiais, constituindo um jogo cujas regras se podem mudar a qualquer momento, de acordo com as correntes de pensamento dominantes, as ideologias, os interesses. Se os resultados não são os esperados, mudam-se as premissas e lá se chega.

E ao ler esta inclusão explícita das actividades ilegais, questiono como é que aquilo que é ilegal pode integrar um "quadro" legal. Fico, também, na dúvida se isso nos deve levar a querer estimular essas actividades, em nome do progresso económico, claro!

Façamos um "supônhamos": atendendo a esse objectivo, deve-se intensificar o combate ao tráfico de droga ou, pelo contrário, impulsionar esse tráfico com medidas de apoio? Prender os traficantes não será uma acção de boicote ao crescimento económico? Ou porque não se faz uma parceria público-privada entre a polícia judiciária e uma empresa, com esta última a vender a droga apreendida pela primeira, com ganhos para o Estado? Já se imaginou essa venda com uma taxa de 23% de IVA?
Não deveremos considerar os traficantes como empreendedores e convidar os principais a participar nas conferências, seminários e outras iniciativas em que se exalta o valor do empreendedorismo?
A comunicação social não deveria desenvolver um conjunto de programas visando melhorar a imagem dos traficantes, dignificar a sua acção e elucidar o público sobre uma actividade que tem as suas dificuldades específicas e um grau de risco elevado?
Imaginar uma campanha publicitária: "Ser traficante - uma profissão com futuro". Uma janela de oportunidades.
O Presidente da República não deveria medalhar os traficantes que se distinguissem pelo seu contributo para a recuperação da economia?

Nem me adianto a fazer o mesmo "supônhamos" para a prostituição!


Resta-me ainda a dúvida: como é que se consegue calcular o valor dessas actividades?
Gostava de saber que cálculos são feitos para chegar a esses valores...


Não há nada como as férias!...



E em 2015 haverá mais rosas laranjas.


sábado, 6 de setembro de 2014

E era mesmo o Camões

... quem lá estava.

«Eis aqui, quási cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.»



Não era a Mensagem de Pessoa.
Mas podia ser...

«O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.»


Memória

«(...)

O que deixaste abandonado regressa - aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa»
José Tolentino Mendonça, De igual para igual
(de um poema intitulado Setembro)


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Mar de Setembro


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.
Eugénio de Andrade