"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Foi uma festa animada.
Divertiram-se os gaiteiros e folgazões, esconjuraram-se (por umas horas) os maus espíritos que nos têm assombrado. A capital foi libertada!
Melhor, só se estivéssemos no ambiente real, autêntico, em que estas festas acontecem.
Fica a sugestão de irmos "chocalhar" o Passos e o Gaspar.
Queimar os "Judas".
Algo explicará a razão porque, ao ler a Fabulazinha, associei as suas moralidades ao Dia da Europa que hoje se comemora.
«Era uma vez uma ninhada de pardais entre os quais, desde logo, se destacou um pela sua irreverência e inconformismo. Seria o primeiro a largar o nume caseiro procedendo a investigações externas e providenciando ao seu sustento. Entretanto o Inverno aproximava-se e ele foi reiteradamente avisado da necessidade de seguir a família na sua migração para o Sul. Recusou, peremptoriamente, decidindo permanecer pelas paragens conhecidas. Inconsoláveis, partiram os outros. O frio começara a apertar, todavia, e o pardalito, medindo a sua intransigência contra as regras do bom senso decidiu abalar também. Desabavam já, porém, as neves e os gelos sobre o nosso diminuto herói que, de asitas transidas acabou por tombar no largo pátio de um estábulo de pachorrentas vacas inglesas. Aconteceu que uma das ditas, que por ali passava defecou sobre o bichinho. Estou pronto!, terá conjecturado ele, submergido por aquela montanha de forragem fumegante e pósdigerida. Mas não. Em pouco tempo o calorzinho desenvolvido havia de descongelá-lo, restituindo-o à vida e às funções normais. Sentiu-se quentinho e feliz e, por isso, desatou em alegre chilrear. Um gato opulento e sonso que andava pelas proximidades, atraído pelos gorgeios, decidiu investigar as origens do ruído e não tardará a dar com a bosta que, de unhas em riste, descascaria papando num ápice o desventurado pardal. Se a história é triste, mesmo pungente, dela se inferem, contudo e para proveito de todos, três tipos de moralidade. A saber: 1) Quem te enche de merda não é necessariamente teu inimigo; 2) Quem te livra da merda não é necessariamente teu amigo; 3) Se te sentes quentinho e feliz no meio da merda, cala o bico.»
Rui Knopfli (reeditado no JL de 31 de Abril de 2013)
Continuando na onda da cortiça...
De 22 a 26 de Maio, o município de Coruche organiza a Feira Internacional da Cortiça (FICOR).
Um tema central da feira deste ano é a água, sendo realçado o papel dos montados para a conservação do solo, regularização do ciclo hidrológico e qualidade da água.
Alexandre Farto, Vhils, o artista plástico com retratos esculpidos nas paredes de várias cidades do mundo, vai experimentar a cortiça.
Desafiado pelo Imaginarius, o Festival Internacional de Teatro de Rua de St.ª Maria da Feira, vai esculpir uma grande peça em cortiça, constituída por blocos que se encaixam, a qual será montada numa parede da Câmara Municipal, homenageando a indústria corticeira da região.
A peça representará o rosto de um trabalhador da cortiça.
Enquanto aguardamos o trabalho em cortiça, fica uma amostra do seu trabalho (directo) sobre paredes.
Desenvolvida ao longo de um ano, foi apresentada na Feira das Piscinas de Lyon, já no final do ano passado, a primeira sauna de cortiça do mundo.
Esta sauna inovadora tem estrutura em madeira, sendo o exterior e interior revestidos a placas de cortiça.
A cortiça apresenta a vantagem de ser sustentável, não apresentar contracções ou dilatações, não empenar nem libertar odores, o que foi provado nos testes, onde as placas de cortiça estiveram cerca de 700 horas expostas a temperaturas acima dos 100º C.
A ideia foi do arquitecto-designer José Carlos Tinoco, que afirma encontrar-se a sua sauna num "patamar superior", pela qualidade dos materiais, facilidade de montagem e de transporte (é portátil) e eficiência energética - a cortiça, como mau condutor de calor, ajuda a um aquecimento mais rápido da sauna e à manutenção mais homogénea da temperatura.
A Sauna Lusa está a dar origem a uma linha de produtos de cortiça. José Carlos Tinoco já desenhou um "combinado" de sauna, banho turco e chuveiro e está a criar um conjunto de peças de mobiliário e de iluminação, tudo em cortiça, para inserir a sauna num determinado ambiente".
No conceituado Royal College of Art (Londres) existe no mestrado de design um módulo dedicado à cortiça. Esta situação é o resultado de uma parceria daquela instituição com a Corticeira Amorim.
O objectivo é desenvolver novas aplicações para produtos de cortiça. Os alunos devem conceber um produto ou aplicação "que seja útil, relevante, de estética apurada, possível de se produzir em massa e de ser comercializado em qualquer parte do mundo."
Porque sob a influência de Brahms, recupero o que Eduardo Lourenço escreveu sobre a sua música, a pretexto da 2.ª sinfonia: «Como pôde estar sepultado tanto tempo ou posto em segundo lugar este maravilhoso e angustiado construtor de espaços musicais de uma melancolia inconfundível, áspera e infinitamente solitária? Toalhas de mar batido de luz e noite sobrepõem-se na sua escrita e compõem esta espécie de cristalização crepuscular que é a sua música.»
Eduardo Lourenço (15 de Abril de 1952), Tempo da Música, Música do Tempo
P.S. - A melancolia dificilmente será colectiva...
Não deixa de ser curioso (para mim) descobrir a marca dos grandes compositores clássicos numa série de músicos/grupos contemporâneos, nomeadamente nos grupos do chamado rock progressivo.
Cresci nesse cenário musical e não me libertarei dele (até pela razão afectiva, que é bem importante).
E é interessante verificar quanto algumas linhas musicais de então (anos 70) se encontram nos meus gostos relativamente aos clássicos. Parece que temos um ADN musical...
A dita música clássica só começou a entrar no meu "sistema" musical quando já estava na casa dos 20 anos.
Com o maior conhecimento dessas obras vou reconhecendo cada vez mais a presença clássica em muitos dos meus grupos favoritos. J.S. Bach deve ser o mais constante. Agora encontro Brahms.
No tema dos Yes (Rick Wakeman), Cans and Brahms (aí declaradamente assumido); em Love of my life, de Carlos Santana (como mostraste, Ana C.; nunca tinha relacionado); neste caso que apresento abaixo, com os Focus (1974):
Na informação do CD dos Focus (um grupo holandês) não há qualquer referência a Brahms (ou a Haydn), e os créditos da música são de um dos elementos do grupo. Mas a abertura do Hamburger Concerto é a abertura das Variações sobre um tema de Haydn, de J. Brahms.
Brahms partiu de Haydn (ou do que supunha ser de Haydn, porque se duvida da autoria), o qual ter-se-ia baseado numa velha canção (Coral de St. António), hino cantado por peregrinos. Os Focus partiram de Brahms. A vida música não pára.
Hamburger será referência (indirecta) a Brahms, natural de Hamburgo?
P.S. - Uma curiosidade: Haydn foi a Hamburgo, em 1795, para conhecer Carl Philip Emanuel Bach, seu ídolo de juventude. Azar: este já tinha morrido (em 1788!). A falta que fazia o fb...
Em 1971, os Yes, através de Rick Wakeman, brincaram com um trecho do 3.º andamento da 4.ª Sinfonia de Brahms. Fizeram Cans and Brahms.
Um momento de boa disposição.
À memória de Brahms
Enjoy
Aquele que parece ter-se transformado em porta-voz do Conselho de Estado, abusou, no seu tempo de comentário na televisão, de uns gráficos que levava consigo sobre a evolução dos números de alunos e de professores nas últimas décadas.
Fez demagogia barata - da mais rasteirinha - num exercício primário que só pretendia justificar o despedimento de mais de 12 mil professores.Os números estão manipulados (os próprios gráficos apresentam escalas diferentes, de maneira a impressionar à primeira vista).
Primário, muito primário e enganador o seu raciocínio argumentativo.
Eticamente foi reles, muito reles!
O horror manifestado por Vítor Gaspar, na A.R., a ter sido eleito para alguma coisíssima pode equiparar-se ao de um outro "mago das finanças", apenas eleito 37 anos depois da sua morte, numa votação promovida pela RTP, como O maior português de sempre.
"Sei muito bem o que quero e para onde vou (...)", frase de Salazar na sua tomada de posse como Ministro das Finanças (27 de Abril de 1928), parece ser o mote da acção, descomprometida com a democracia, do actual Ministro.
Acredito que saiba, eu é que não quero ir para onde ele vai!
«As limitações invencíveis do clima e a disposição do relevo criaram, de um extremo ao outro do mundo mediterrâneo, a oscilação transumante. Prática cujas origens se perdem na pré-história, impressionara, pela sua regularidade, autores antigos, que a compararam à subida e descida alternada dos pratos de uma balança. Durante o Verão, a erva seca nas terras baixas e há que procurar pastagens frescas na montanha; no Inverno, cobrem-se os cimos de neve e os rebanhos buscam abrigo e alimento nas planícies e nos vales. Estabelecem-se assim duas correntes, ou uma corrente dupla: gados da serra que descem à terra chã, no Inverno; gados das baixas que sobem às pastagens alpestres, durante o Estio; ou ainda mistura de uns e de outros. (...) Outrora, estes movimentos transumantes cobriram muito maior extensão. A Serra da Estrela recebia ovelhas de entre Tejo e Guadiana e até de Espanha. Os rebanhos serranos invernavam no Campo de Ourique, depois de um percurso de mais de 400 km, e a eles se juntavam, na mesma região, gados espanhóis da cañada real leonesa, que até à Restauração se ramificava também pelo Alentejo.»
Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1.ª ed. 1947)
A Grande Rota da Transumância
Os municípios serranos organizaram um conjunto variado de eventos, homenageando as tradições seculares relacionadas com a transumância - "um tributo à memória das passagens e paragens dos pastores e rebanhos, que calcorreavam os terrenos unindo as planícies a norte do rio Tejo, passando pela Serra da Gardunha até à Serra da Estrela."
A Grande Rota da Transumância recria a subida à Serra da Estrela dos pastores do interior de Portugal, na procura das melhores pastagens.
Os "sedentários" podem seguir pelo site e pelo facebook.
Quanto já evoluímos desde o tempo em que um pastor perdido na serra atendia o telemóvel: "Tou xim?"
Pintura de 1935, referência ao nascimento do primeiro filho do pintor, ocorrida em finais do ano anterior.
O círculo quase perfeito que resulta do envolvimento do filho pela mãe - criação de uma forma única.
António Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa, discursou na sessão de abertura do 11.º Congresso Nacional dos Professores, citando Sophia de Mello Breyner por mais de uma vez.
«O problema maior dos professores é o mesmo que sinto agora, quando vos falo. Sei que tenho a obrigação de dizer palavras de futuro, e não as encontro. Não sei onde é que estão. Não sei para onde foram. É assim também com os professores. Porque educar é abrir caminhos. É viver no presente mas para além das fronteiras do presente. Por isso, é nosso dever, é nossa obrigação, ir à procura da esperança, de uma esperança que é mudança. E se não a encontrarmos à primeira, então que façamos dela luta, resistência, união em torno de causas maiores que recusem as políticas menores que nos asfixiam. (...) É tempo de dizer não! Não à degradação da escola pública. Não à menorização dos professores. Não a um país sem futuro. "Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem!" (...) Reforçar a escola pública é criar capacidade para produzir cultura, para produzir investigação científica e tecnológica própria, para diminuir a nossa dependência. Num país com tão grandes fragilidades, o nosso principal cimento é a escola, a escola pública, a escola pública para todos. (...) Podemos prescindir de tudo, mas de nada quanto à valorização da escola e dos professores... porque é aqui que estão as condições para um Portugal futuro que não seja apenas a repetição do Portugal passado. É por isso que temos de ser impacientes. Não há nada mais urgente do que a ideia de futuro, do que uma visão de longo prazo.Porque é ela que nos permite dar o primeiro passo. E nele vai já o caminho todo, toda a energia do percurso que temos de fazer.»
Perdoai-me, senhores, por alguma (involuntária) infidelidade textual ao discurso.
À ideia estará reconhecidamente fiel.
«(...) "Ganharás o pão com o suor do teu rosto" Assim nos foi imposto E não: "Com o suor dos outros ganharás o pão" Ó vendilhões do templo Ó construtores Das grandes estátuas balofas e pesadas Ó cheios de devoção e de proveito Perdoai-lhes Senhor Porque eles sabem o que fazem»
Sophia de Mello Breyner, As pessoas sensíveis, in Livro Sexto
«Agora, era como se a História voltasse para trás. Nos países ocupados, os nazis tinham descoberto a solução para se verem livres dos judeus: metê-los em guetos. E para os enganar, faziam-nos eleger chefes que, muitas vezes, porque pensavam que assim protegiam o grupo, cumpriam as ordens do Reich: reduzir rações, confiscar os bens, deixar morrer os velhos, os doentes, as crianças. Era nisto que a nova Europa se estava a tornar: os guetos eram os países sob confisco, e em cada um deles tinham arranjado governos dóceis que cumpriam as ordens que vinham do centro de decisão. Não chegáramos à perfeição desses guetos, ao encerramento dos países dentro de muros de onde ninguém podia sair nem entrar; mas era uma questão de tempo (...)»
Ouvi há pouco na televisão, num dos debates que se multiplicam cada vez que o Governo anuncia que nos vai roubar mais, o estafado argumento de que milhares de professores são dispensáveis porque o número de alunos está a diminuir.
Está a diminuir, mas quando é que os jornalistas e comentadores de toda a má raça fazem o trabalho de casa e deixam de repetir chavões, o que daria para verificar que as razões para a dispensa de tantos professores são outras?
reduziu-se o número de disciplinas de que os alunos usufruem;
diminuiu-se o número de horas lectivas por ano de escolaridade;
acabou-se com os pares pedagógicos que funcionavam em várias disciplinas;
aumentou-se a carga lectiva dos professores;
aumentou-se o número de alunos por turma;
impediu-se o funcionamento de algumas turmas de cursos para adultos.
Repito-me, mas os jornalistas e comentadores também.
Tenho os mesmos direitos!
Andava eu desejoso de ver os azulejos de Lisboa vista do Tejo postados no cacilheiro - projecto de Joana Vasconcelos para a Bienal de Veneza; espreitava eu diariamente o estaleiro, para ver o avanço da obra; levei eu a máquina para fazer o boneco do cacilheiro revestido (saía hoje do estaleiro para a zona de St.ª Apolónia)...
Também gostaria de ver o interior, revestido a cortiça. Mas já me contentava com uma distante olhadela aos azulejos.
E foi o barco assim. Só irão colar os azulejos em Veneza?
Voltei hoje a realizar uma Visita de Estudo à "moda antiga".
Isto é, "pegar" numa turma (pequena), levar os miúdos em transportes públicos, dar-lhes mundo.
Por estranho que possa parecer, e a mim próprio parece-me, há jovens que, morando nos arredores de Lisboa, nunca tinham descido à Baixa da capital.
Andar pelo centro da cidade, mostrar-lhes o património histórico, relacionar esse património com a vida, possibilitar que sintam o movimento do mundo...
Muitos objectivos da visita, directamente relacionados com os conteúdos de HGP, não foram atingidos. Mas a concretização do afirmado no parágrafo anterior compensou, com saldo francamente positivo.
É de medição impossível, o que parece ultrapassar a capacidade de compreensão de algumas cabeças pensantes do ministério, mas o que contribui para a formação dos jovens (para além da componente curricular explícita), a experiência do que se vive, o chamado currículo oculto, é fundamental.
Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã a harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã Da humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim que vive À beira dum jardim que só eu tive.